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Redução na Produção de Ovos de Páscoa

Para os consumidores de chocolate, a Páscoa de 2025 trará notícias preocupantes. A produção de ovos de Páscoa sofrerá uma queda significativa.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), haverá uma redução de 22,4% na produção, limitando a quantidade de ovos disponíveis para cerca de 45 milhões de unidades.

Aumento Significativo no Preço do Cacau

O aumento dramático no preço do cacau é um dos fatores chave desse cenário desafiador. Em dezembro, o cacau atingiu um valor recorde de US$ 11.040 por tonelada.

Esse aumento expressivo, impulsionado por problemas climáticos e o envelhecimento das plantações em regiões produtoras como a África, reflete diretamente nos custos de produção dos chocolates.

Impacto nos Preços para o Consumidor Final

O efeito mais direto desse aumento nos preços do cacau é sentido pelo consumidor final.

De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (INPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do chocolate em barra e dos bombons já sofreu um aumento de 16,53% nos últimos 12 meses até janeiro, enquanto o chocolate em pó encareceu 12,49%.

Esse impacto no preço não pode ser completamente evitado pelas estratégias da indústria, e consumidores provavelmente sentirão a diferença ao realizar suas compras de Páscoa em 2025.

Tentativas da Indústria para Mitigar a Crise

As indústrias de chocolate estão buscando maneiras de mitigar esses impactos e manter sua base de consumidores.

Algumas estratégias incluem um aumento de preço entre 8% e 10%, menores que a alta do cacau, na tentativa de equilibrar a rentabilidade com a acessibilidade.

Além disso, essas empresas estão ampliando a variedade de seus produtos e trabalhando para preservar as dimensões tradicionais dos ovos de Páscoa, não reduzindo o tamanho dos produtos para evitar uma percepção negativa dos consumidores.

Embora esses esforços possam ajudar a amenizar o impacto imediato sobre o preço final dos produtos, a crise global do cacau sugere que os desafios persistirão. As dinâmicas do mercado alimentar global, somadas às condições climáticas adversas, continuam a pressionar a oferta e elevar os preços do cacau.

No próximo capítulo, será explorada a dimensão da crise global do cacau, incluindo os fatores climáticos e o envelhecimento das plantações nas regiões produtoras emblemáticas da África.

Crise Global do Cacau

Terceiro Ano Consecutivo de Déficit

A crise global do cacau alcança seu terceiro ano consecutivo de déficit na produção mundial. Desde a safra de 2021/2022, os países não conseguem produzir cacau suficiente para atender à demanda crescente.

De acordo com a Organização Internacional do Cacau (ICCO), foram 758 mil toneladas a menos produzidas nesse período. Esta situação é agravada pelos problemas climáticos e pelo envelhecimento das plantações em regiões-chave, particularmente na África.

Problemas Climáticos na África

A África, responsável por 70% da produção mundial de cacau, enfrenta desafios climáticos severos. O fenômeno El Niño causou secas, chuvas intensas no momento errado, pragas e doenças, como a podridão parda.

Essas adversidades climáticas atingiram drasticamente os rendimentos das safras e elevaram os preços do cacau a patamares elevados. Em dezembro, o preço da tonelada de cacau na bolsa de Nova York chegou a US$ 11.040, um aumento incrível de 190% em dois anos.

Envelhecimento das Plantações na Costa do Marfim e Outros Países Produtores

Além dos problemas climáticos, o envelhecimento das plantações é um fator crítico que impacta a produção.

Na Costa do Marfim e em Gana, as árvores de cacau envelhecidas são menos produtivas e mais suscetíveis a doenças. A falta de investimentos na renovação das plantações agrava ainda mais a situação.

Segundo especialistas, a renovação dos cacaueiros é necessária a cada 15 a 20 anos para manter uma boa produtividade. Contudo, os altos custos e a baixa remuneração desestimularam os produtores a investir em novas plantações.

A coletânea intensa de cacau dos últimos anos sem a devida reposição tem levado a uma diminuição considerável nos rendimentos anuais. A Costa do Marfim, por exemplo, viu sua colheita diminuir de 2,12 milhões de toneladas na safra de 2022/2023 para 1,8 milhões de toneladas em 2023/2024.

Um Olhar para o Futuro

  • Apesar do cenário preocupante, há uma expectativa de que a produção mundial de cacau possa aumentar nos próximos anos, impulsionada por condições climáticas mais favoráveis na África e novos investimentos dos produtores.
  • No entanto, os efeitos desses investimentos só serão perceptíveis a médio e longo prazo, uma vez que um cacaueiro recém-plantado leva cerca de seis anos para começar a produzir uma boa safra.
  • Para seguir em frente nesse panorama desafiador, é crucial continuar explorando estratégias inovadoras na cadeia produtiva, buscando não apenas aumentar a produção, mas também garantir a sustentabilidade do setor.

Integração das Estratégias da Indústria

De maneira pragmática, a indústria está se adaptando à crise global do cacau. Se, por um lado, os preços dos produtos precisam ser reajustados entre 8% e 10% para manter a viabilidade, por outro, a diversificação do mix de produtos e tamanhos surge como uma medida para tentar captar diferentes segmentos de consumidores.

Mesmo com a crise, a indústria opta por manter as dimensões tradicionais dos ovos de Páscoa, preservando uma certa constância para o consumidor.

Com um cenário de preços elevados e produção insuficiente, as indústrias necessitam de flexibilidade e inovação para superar os desafios e garantir que, a cada Páscoa, o chocolate chegue às prateleiras e ao coração dos consumidores.

Situação do Brasil no Mercado

Produção Limitada

O Brasil contribui com apenas 4% da produção mundial de cacau, ficando em uma situação delicada no mercado global.

Este percentual é insuficiente para atender à demanda interna, o que torna o país dependente de importações para suprir suas necessidades.

Em 2024, o mercado brasileiro demandou aproximadamente 229 mil toneladas de cacau, mas a produção nacional foi de apenas 179,431 mil toneladas, uma redução de 18,5% em comparação a 2023.

Desafios Climáticos e Agrícolas

A crise do cacau no Brasil é, em grande parte, um reflexo dos desafios climáticos e agrícolas. O fenômeno El Niño, que afetou severamente a África, também teve impacto nas lavouras nacionais. A estiagem, seguida por chuvas excessivas, prejudicou a produtividade.

Além disso, pragas e doenças, como a podridão parda, também contribuíram para a queda na produtividade. A incidência dessa doença na Bahia resultou em perdas de mais de 60% para alguns produtores.

Dificuldades na Moagem e Estoques

  • A produção nacional de cacau em queda acarreta desafios adicionais para a indústria moageira. Os estoques de cacau começaram o ano em baixa, não chegando a 20 mil toneladas no primeiro trimestre de 2025, quando normalmente a moagem é de cerca de 60 mil toneladas.
  • Com a produção interna insuficiente, a solução tem sido importar o volume necessário para garantir a continuidade das operações nas fábricas.

Histórico de Autossuficiência e Crise

Na década de 1980, o Brasil chegou a ser autossuficiente na produção de cacau, mas a doença vassoura-de-bruxa dizimou as lavouras.

Este período foi um divisor de águas, e até hoje o setor luta para recobrar o nível de produção daquela época. Em 2024, os principais estados produtores, Bahia e Pará, viram quedas significativas na produção, exacerbando a crise interna.

Futuro da Produção Nacional

Especialistas acreditam que o Brasil tem potencial para aumentar sua produção graças ao clima favorável e à disponibilidade de espaço para cultivo.

No entanto, uma melhora significativa levará tempo, visto que um cacaueiro recém-plantado leva cerca de seis anos para atingir uma boa produtividade.

A expectativa é que, com investimentos estratégicos em renovação de lavouras e controle de pragas, o país possa voltar a ser um player mais significativo no mercado global de cacau.

A seguir, vamos explorar as estratégias adotadas pela indústria para enfrentar a crise atual.

Estratégias da Indústria

Reajustes nos Preços dos Produtos

Com a crise global do cacau, os preços dos produtos derivados desse valioso ingrediente tiveram que ser ajustados.

Em 2025, diversas empresas do setor chocolateiro, como a Cacau Show, realizaram reajustes entre 8% e 10% nos preços de seus produtos.

De acordo com o vice-presidente da empresa, Daniel Roque, mesmo com o aumento menor que o crescimento no preço das amêndoas, o setor sofrerá uma perda de rentabilidade para não sobrecarregar ainda mais o consumidor final. Esta abordagem visa manter o consumo de chocolate viável, mesmo diante do cenário adverso.

Diversificação do Mix de Produtos e Tamanhos

Para contornar a escalada dos preços e a redução da produção de cacau, a indústria tem investido na diversificação do mix de produtos e tamanhos.

As empresas Nestlé e Mondelez Brasil, por exemplo, lançaram produtos de diferentes tamanhos para atender à demanda do mercado.

Além disso, novas combinações de chocolate com frutas, amendoim e pistache têm sido introduzidas para ampliar a variedade e atrair consumidores com diferentes preferências.

Essa estratégia não só ajuda a democratizar o acesso aos produtos de chocolate, mas também visa manter o interesse do público, oferecendo opções mais acessíveis mesmo em tempos de altos preços do cacau.

Descubra alternativas para a páscoa: 

Manutenção das Dimensões dos Ovos de Páscoa

Apesar da crise, as dimensões dos tradicionais ovos de Páscoa não foram alteradas este ano. Daniel Roque afirma que a manutenção do tamanho procura melhorar a experiência de consumo, sem comprometer a tradição tão aguardada pelos brasileiros.

Enquanto algumas marcas diminuíram o tamanho das barras de chocolate em outros períodos, os ovos de Páscoa permaneceram inalterados, com o intuito de preservar a essência desse doce momento.

Neste ano, serão produzidos cerca de 45 milhões de unidades, representando uma queda significativa de 22,4% em comparação com o ano anterior, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab).

Estratégia para Enfrentar o Futuro

  • Diante de um cenário incerto, a indústria do chocolate não teve alternativa senão se ajustar rapidamente às novas realidades do mercado.
  • A adoção dessas estratégias tanto no preço quanto na diversificação dos produtos é um esforço para mitigar os impactos da crise global do cacau.
  • A expectativa é que, com o tempo e melhores condições climáticas, a produção mundial de cacau se estabilize, permitindo um alívio gradual nos preços e uma retomada positiva da produção.
  • Em uma visão prospectiva, seis anos podem ser necessários para melhorias significativas no setor, devido ao tempo necessário para que novas plantações de cacau comecem a dar frutos.

Perspectivas para o Futuro

Expectativa de Aumento na Produção e Queda na Demanda

Com base nas previsões para o ano de 2025, há uma expectativa de que a produção mundial de cacau mostre sinais de aumento.

Desta maneira, espera-se uma possível queda na demanda devido ao reflexo do alto preço do cacau no consumo. Muitos consumidores já demonstraram uma redução na compra de produtos de chocolate, o que fez com que as chocolateiras também diminuíssem suas encomendas para a indústria moageira.

Essa dinâmica pode levar a uma estabilização ou até uma queda nos preços, conforme lembra Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Previsão de Melhora na Safra Africana

Outro aspecto importante para a melhora no cenário global do cacau é a previsão de condições climáticas mais favoráveis para a safra africana.

Marcos Silveira Bernardes, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), ressalta que os produtores africanos que lucraram recentemente estão reinvestindo em suas lavouras. Esta ação, somada à entrada de novos produtores, pode gerar um aumento significativo na produção.

Impacto das Condições Climáticas

O clima mais ameno esperado para as próximas safras pode reverter parcialmente os prejuízos dos últimos anos causados tanto pela estiagem quanto pelo excesso de chuvas e pragas, como a podridão parda.

Esses problemas impactaram fortemente a produção de cacau em principais países produtores na África, responsáveis por 70% do fornecimento mundial do fruto.

O Longo Caminho para Melhorias Significativas

Apesar das previsões otimistas, especialistas apontam que as melhorias significativas no setor só serão visíveis a longo prazo.

A produção de cacau envolve um ciclo longo; uma nova plantação leva de cinco a seis anos para começar a dar frutos de maneira robusta. Portanto, os investimentos realizados agora terão seus refletores mais evidentes após um período de maturação extensivo.

Além disso, a reestruturação das lavouras na Costa do Marfim e em Gana é essencial e envolve altos custos e gestão eficaz. A falta de investimento em renovações ao longo dos anos contribuiu significativamente para o envelhecimento das plantações, resultando em produtividade reduzida.

Perspectiva de Preços do Cacau

Francisco Queiroz, analista da consultoria Agro do Itaú BBA, destaca que, embora os preços tendam a ceder com uma boa colheita africana, não devem retornar aos patamares de anos anteriores tão rapidamente.

Os preços devem permanecer elevados, mas de forma menos extrema em comparação aos picos recentes vistos em dezembro.

Essas análises trazem um contexto ambivalente: a curto prazo, os desafios permanecem, mas a médio e longo prazo, os esforços de investimento e as melhorias climáticas podem trazer uma nova era de estabilização para a produção mundial de cacau.

Como próximo passo, é essencial que tanto os produtores quanto a indústria continue a investir em estratégias para otimizar o rendimento e reduzir os impactos das variáveis climáticas na colheita.